Dormirei em paz, a despeito daqueles que tentam impedir o sossego de meu sono. Se não há pessoalidade nas relações estabelecidas, não sou eu que pagarei o preço disso. Tenho a consciência tranqüila e a alma leve, daqueles que nada devem que não seja seu. Trago a marca do justo em mim, e amo amigos como se ama irmãos, talvez ainda mais quando fala de certas relações fraternas. Descubro um mundo em um detalhe despercebido, antecipo alegrias e tristezas, que ora me aparecem em sonhos, ora em pensamentos diurnos sorrateiros. Desfiz-me por vezes do que amei, porque há momentos no caminho em que certos fatos não cabem mais. Pago com a dor que reverbera em mim tempos depois do ocorrido.
Nunca sei se peguei a estrada correta, eu nunca desenhei minha rota certinha, aprendi a deixar espaço para o imprevisível. Sempre vislumbrei a chegada, e ainda assim nunca perdi de vista a beleza do caminho, sonhei alto, desejado, realizei. Mudo de opinião como quem troca de roupa, às vezes bato o pé só pra ver o que dá. E sempre deu, porque de tudo ainda acho bom demais. Rascunho de mim mesma, vivo buscando as páginas em branco para escrever dessa vida mais e mais.
"Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou." (Adélia Prado)
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segunda-feira, 20 de julho de 2009
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Possível
Caminhava por onde já se conhecia, uma tarde abafada, calorenta, uma chuva necessária se anunciava... em vão. Lembrou que há muito não via os mensageiros, vai que não tinham notícias. Já haviam anunciado? Sua capacidade de surpreender (se) não se esgotava, e observou admirada, num relance, as flores lilases bonitas que dava a árvore, mesmo podada, quase morta. Na impossibilidade de um registro fotográfico, tratou de fixar a imagem no cérebro, o bonito lilás, profuso. O caminho tinha árvores outras, e ainda surpresa, viu: flores amarelas, e pequenas, em plena morte, caídas, no chão. Ainda ali, podia-se ver a beleza delas, possível ainda na agonia. Faziam-se tapete, pequenos pontos dourados, todos juntos, cobrindo o frio feio do asfalto. Podia ter poesia, o concreto. Aquele nem era o caminho mais bonito, entretanto guardava surpresas como essas. Assim era: escolhera, sem saber ao certo, um destino, e o cumpria com a convicção de que era a sua construção possível.
sábado, 4 de outubro de 2008
Bonito
Acho bonito quando ele chega, com uma sacola na mão, cheia de frutinhas colhidas no quintal de casa. Faz graça, esconde, porque eu, curiosa, mal o cumprimento e fico olhando para a sacolinha, querendo saber se é pra mim. São pra mim, e hoje comi um monte de amora fresca: um monte de uma vez, tem mais gosto assim, ele me ensina. Acho que vi em algum lugar que russos adoçam seu chá com framboesa ou amora, sei lá. Achei poético. Foi Clarice quem disse que achar bonito é um jeito indireto de entender? Ainda tenho algumas poucas amoras, acerolas, pitangas. Tudo é um jeito de dar mais sabor à vida. Acho bonito demais.
Foto por Alexandre, que as faz e me traz para mostrar coisas bonitas
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