terça-feira, 5 de agosto de 2008

Dolce vita - paradoxo do tempo


Aí aconteceu o esperado: ela perdeu o emprego. Perdeu é modo de dizer, porque lembrou-se de como já estava infeliz ali, de como passava os dias contando as horas e minutos e segundos para ir embora. E passava as semanas contando quantos dias faltavam para a sexta. E contando quantos meses faltavam para as próximas férias ou feriado prolongado. Uma agonia, aquilo. Mas precisava pagar as contas e, acomodada, foi ficando por ali mesmo, infeliz da vida.

Ela se conhecia, e sabia que aquilo não poderia durar, já que não agüentava viver assim, com hora marcada pra ser meio triste. E convenhamos: bater ponto na tristeza é muito, mesmo para o mais conformado dos viventes.

Percebeu uma estranheza no ar bem antes do ocorrido, dada que era a uns surtos de premonição. Não sabia bem o quê, nem como, nem por quê, mas cantou a pedra meses antes do fato, e já anunciava aos mais íntimos que isso poderia acontecer, mais cedo ou mais tarde. Ba-ta-ta!! Como diria a avó. Pensou um pouco: é certo também que de alguma maneira buscara aquilo, e ela sabia. Não escondia sua insatisfação ali dentro, e só faltava verbalizar. Não, nem isso faltou.

Viu-se então diante do incerto, e pela primeira vez em quinze anos (com exceção das férias) não tinha que levantar cedo e sair correndo para o trabalho. A falta do que fazer não era um problema, já que ela cultivava prazeres os mais variados, não vivia só para o trabalho, tinha uma vida pessoal quase plena (era humana) e satisfatória, a despeito das tentativas diárias das corporações de sugar seu sangue e alma para o trabalho. Sua crença, essa foi mantida intacta: acreditava no trabalho como meio de vida, e não pavimento para a morte. Mortes variadas: a literal, do corpo, a morte da alma, das brincadeiras com os filhos, morte da leitura, de ouvir boa música, de ter tempo para os amigos, do tempo de pegar um cinema com a irmã e até mesmo do tempo para ficar sem pensar em nada, morte do tempo de viver para ser feliz.

Tratou de continuar vivendo, foi buscar outras chances, pensando se era mesmo aquilo que queria. Releu livros, descobriu outras músicas, dormiu de tarde, viu filmes de madrugada, namorou sem ter hora de acabar, cozinhou, arrumou a casa, construiu novos afetos, limpou a estante, vai até doar alguns livros (e mais alguns, se conseguir se desapegar), fez fotos bacanas, está aprendendo a curtir pintura, fez o que tinha e não tinha direito.

Continua desempregada, não à toa, vejam bem. Disseram que seu currículo é “muito bom”, e sua recolocação no “mercado de trabalho” está suada. Nem se assustou com o diagnóstico da moça da empresa de headhunters, a mediocridade da vida inunda tudo. Ela precisa pagar as contas, e segue buscando, sem saber muito o que quer, tem seus dias de descrença, até uma certa “revolta” pinta, mas sabe que vai acontecer. Ah: ela está nesse momento descobrindo a música clássica, aprendendo a viver sem culpa, e parece que anda escrevendo uns textos, e achou alguns até bem legais.

3 comentários:

Max disse...

Tati, você é uma surpresa constante. Gostoso, seu texto. E se o texto é sobre você, seu jeito de ser/pensar é outras tantas delícias. O Fitzgerald traduziu o Khayamm mais ou menos assim: ó vem/ vivamos mais que a vida/ vem, antes que em pó/nos deponham/também - pó sobre pó, e/ sob o pó pousados, /sem som, sem sonho, sem vinho / sem.
Viver intensamente é um legado em si - e pra nós do zen a doação a si próprio, de tempo/espaço felicidade namoro e outros, é a primeira das doações.

Tati disse...

Obrigada meu querido!!! Pelo prazer de vê-lo lendo meus escritos... É só uma tentativa, mas taí!! bjs

Tati disse...

Com a licença do Betão, publico abaixo o comentário que ele não conseguiu postar:

"Don Max fiz este comentário no bloog da Tatiana, mas como não sou associado, não tive como envia-lo, se puder fazer isto por mim te agradeço. Um abraço Betão



Tatiana foi um duplo prazer ler o teu texto Dolce Vita.. Primeiro por estar em um lugar destes bem pequenininhos que dificilmente se ouve falar sobre o mesmo na mídia, trata-se de Poloni - SP, uma cidadezinha de 4 mil hab. próximo a São José do Rio Preto- SP
E, segundo porque acabei de fazer algo em relação a esta Dolce Vita, e estou aqui vivendo intensamente este momento, ou seja mais um dos meus inúmeros momentuns de "sem emprego", "sem função"...sem várias coisas.... mas com muita inspiração e super feliz. Obrigado por teu texto, sou amigo de Maxwell Sarmento o qual enviou-me o teu bloog, paz, saúde e muitas alegrias, beto"

Obrigada, Betão, pela visita e fico feliz com sua opinião!!

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